

03/09/2007 - Caderno LInk do Estadão
Nego Moçambique 34 anos, músico e produtor
‘Acabou o papo de não poder fazer download’
Produtor diz que a tecnologia e a internet libertaram o artista e afirma que ‘sempre tem que haver uma espécie de caos’
Quando o assunto é tecnologia, não
tem ladainha, muito menos falsidade, com o músico e produtor brasiliense
Nego Moçambique. “Não consigo imaginar como seria a música
no Brasil se as pessoas nas favelas, nos rincões de miséria,
tivessem acesso às ferramentas digitais de produção que
eu tenho. Com certeza a gente está perdendo muita riqueza. O Brasil
é meio estranho porque todo o boom digital continua elitizado”,
chutou o balde, logo no começo da entrevista ao Link na semana passada.
Nego, que é um dos novos expoentes da música eletrônica no Brasil, tem uma dualidade marcante não só nas opiniões, mas também na música. Seu som é uma mistura de batidas e samples – trechos de gravações modificados – com ritmos dançantes africanos. Ele coloca no eletrônico uma emoção mais humana, pura.
“A mistura veio por uma intuição mesmo, um jeito de marcar o trabalho que faço. Antes inventava um monte de teorias para explicar, mas não tem muita enrolação, não”, confessa.
A sinceridade com que ele fala é de espantar qualquer pessoa e ainda dá um tom real à sua personalidade artística.
Até pouco tempo, Nego não gostava de ser chamado de DJ. “Eu não toco com discos”. Mas hoje nem liga mais se alguém confunde ou não sabe que o trabalho dele mesmo é remixar ou (re)criar música em cima de outros sons.
E esse desapego às opiniões é presente também na maneira com que ele vê a influência da tecnologia na música, tanto a sua quanto de modo geral.
“Acho que a tecnologia (usada para a produção de música) está criando uma linguagem nova. Tem software que consegue fazer batida com uma métrica, umas viradas que um baterista humano não pensaria em fazer a princípio”, diz ele.
Mas, como Nego não faz culto a nada, ainda completa. “Tem músicos que negam isso. E podem renegar mesmo, não tem problema. Sempre tem de existir uma espécie de caos. E é bom que a tecnologia incentive a disputa. De qualquer maneira o que continua valendo é o que o artista sente, o que ele tem para dizer. Tecnologia não deixa de ser ferramenta, saca?”
A visão mais realista é uma conseqüência de o músico ter entrado para o mundo digital há pouco tempo. Quatro anos atrás ele não usava a internet e até hoje é avesso ao celular. “Só comprei porque me encheram muito o saco”, diz.
Nessa época, ele gravava muitos samples da televisão. Zapeava os canais de TV a cabo e pegava sons e falas inéditos. “Já consegui cada coisa assim, na sorte mesmo”, diz.
Hoje ele se diz um “verdadeiro parasita” dos sites que vendem samples. Mas ele só baixa os gratuitos. “Tem desde macaco a carro e avião até homem fazendo bolha dentro da banheira. É uma quantidade de sons infindável. Fora coisas como as falas antigas do Jornal Nacional”, afirma.
Ao contrário de outros artistas, Nego acha que ter uma página própria no MySpace - comunidade online que reúne muitos músicos e bandas - ajuda menos na divulgação do que nos downloads em redes de compartilhamento. “Gosto do MySpace para conhecer outros músicos que eu acho foda e fazer contatos para futuros shows.”
A cultura livre que rola na
internet vale para o seu próprio trabalho. Se alguém baixar
o CD dele? “Ah, foda-se. Deixa o cara. Nenhum artista vai ganhar dinheiro
com música, não. Tem gente que fica com esse jeito egoísta.
O mundo é assim agora. Acabou o papo de não poder fazer download.
Se um artista não está num BitTorrent da vida, ele simplesmente
não existe.”