

11/12/2006 - Caderno Link do Estadão
Televisão é a bola da vez
Pedro Doria*
Se fosse preciso pinçar um momento da web em 2007, aquele que representou a grande mudança que o ano incorporou, este momento seria a estréia de Lonelygirl15 no YouTube, em 16 de junho. Dizer que é o início do fim da televisão é exagero -– a televisão não vai acabar. Mas a TV como a conhecemos mudará.
Quem acompanhou o Link durante o ano sabe: Lonelygirl15 é uma menina norte-americana chamada Bree, que adotou o YouTube para veicular seus desabafos pessoais. Antes do décimo vídeo, chegou à marca de 100 mil espectadores por episódio; antes do vigésimo, ultrapassou os 300 mil. Esse é um número chave: para uma série de TV a cabo ser considerada um sucesso nos EUA, 300 mil espectadores é bem bom.
E Bree, naturalmente, não existe: era uma atriz filmada por jovens diretores. Sua audiência caiu quando a verdade surgiu, mas continuou na categoria de sucesso. Até o iniciozinho de dezembro, 21 milhões de pessoas assistiram a moça.
E a televisão com isso? Bem, funciona da seguinte forma. Primeiro, a web causou impacto na imprensa escrita, um impacto que lhe custa leitura e leitores do papel até hoje e cada vez mais intensamente. Depois, conforme veio a banda larga na virada do século, quem sentiu o tranco foi a indústria fonográfica. A distribuição digital de música ainda está começando a mudar toda a lógica do negócio das gravadoras.
Mais banda e melhor tecnologia de compressão de dados permitiram a existência do YouTube e tantos outros – as grandes TVs ainda não começaram a sentir a concorrência, mas vai acontecer nos anos por vir.
Não é apenas Lonelygirl15, evidentemente. São todos os videozinhos que vão de caixa postal em caixa postal, que aparecem com cada vez mais freqüência nos colunões dos blogs, que circulam por links para sites como o YouTube.
Isto quer dizer que os hábitos de assistir a vídeos estão mudando. O que Lonelygirl15 representa é o primeiro modelo de como seria uma série de ficção na internet. Sim, o acabamento é menos cuidadoso, o personagem fala direto para a câmera – tudo muito estranho. Mas, obviamente, tem público à beça.
E há uma fortuna – US$ 67 bilhões anuais – em jogo. É o dinheiro que compra a propaganda de televisão no mundo todo. A audiência da televisão aberta está diminuindo, mas o impacto na publicidade ainda é pequeno. Se a audiência se transfere para a rede em larga escala, a coisa muda. Muda porque na TV aberta a propaganda vai para o povo todo, aleatoriamente, mesmo que só interesse a uma parcela; na internet, quem faz propaganda direciona para o público certo sua mensagem. O dinheiro rende mais vendas.
A mudança não vem num estalar de dedos. Primeiro, ninguém apareceu com uma boa solução para veicular a propaganda no vídeo pela web. O Google, que comprou o YouTube, bolou um método eficaz par inserir propaganda de forma não intrusiva nas buscas. E isto, além de ser uma facada nos classificados de jornais mundo afora, lhe rende um bom dinheiro. Algo do tipo para vídeo, não tem.
No Brasil outra dificuldade se impõe: a publicidade, aqui, não vive apenas do que lhe paga o anunciante. Quem veicula, seja TV, seja revista, também repassa um percentual do gasto na forma de comissão. Alguns chamam de suborno, mas é o cliente que subsidia consciente esta comissão. Enquanto ele quiser o jogo jogado assim, assim será. E sempre valerá mais a pena para a agência de propaganda pendurar um spot de 30 segundos na novela do horário nobre do que num site da internet. Ganha uma fortuna em comissão.
Impossível dizer quando o público migrará para a internet – e quanto do público migrará. Mas este movimento vai acontecer, está começando a acontecer. Os canais de TV estão atentos como não estava a turma das gravadoras – ainda assim, parecem sofrer daquele mal que atinge as empresas muito grandes. No fundo, lá no fundo, eles realmente não acreditam que aquilo que funciona tão bem há tanto tempo mudará da noite para o dia.
Enquanto isso, o mundo muda ao seu redor.