

A morte do pageview
Navegar Impreciso
Pedro Doria, pedro.doria@grupoestado.com.br
Aconteceu uma coisa diferente, esta semana. Até surpreendente. O Instituto Nielsen, criado há muitos anos para aferir a audiência da televisão americana, espécie local de Ibope, decidiu por fim inclemente ao pobre pageview. Durou bastante.
Quando nasceu a internet comercial e os sites perceberam que precisariam medir sua audiência de alguma forma, houve intensos debates. Aos poucos, o mercado - sempre ele - decidiu-se pelo padrão do pageview.
Quer dizer páginas visitadas. O número de páginas visitadas no tempo da Web 1.0 indicava a popularidade de um dito portal. Para os publicitários, era ótimo. Afinal, a cada vez que uma página era recarregada, um novo banner com propaganda aparecia. Havia sentido naquilo.
Só que agora - é a turma do marketing que o diz - vivemos a época da Web 2.0. Esta web mais interativa não pode mais ser medida por meras páginas que são abertas pelo browser. Há alguma razão neste raciocínio.
Um dos problemas são as novas ferramentas dos sites. Quando o pobre leitor clica numa apresentação de slides que abre não como janela mas como uma camada em cima da página que lia, ele está desfrutando de uma tecnologia nova que não conta um pageview a mais.
Outro problema é mais evidente. Se o blogueiro põe três ou quatro vídeos do YouTube - ou similar, não importa - em seu blog, cada visitante que decidir assistí-los vai gerar acessos ao YouTube, mas não vai gerar um único pageview.
Páginas vistas, portanto, não representam mais todo o acesso que um portal tem.
Como a Nielsen - que também afere a audiência da web -, não podia simplesmente eliminar com os pageviews sem oferecer algo em troca, saiu-se com uma solução que lhe era familiar: tempo gasto num site. Se o visitante ficar 10 minutos, é bom. Se ficar 20, é melhor ainda.
A Nielsen está em casa. Afinal, tempo é medida da TV. Trinta segundos de anúncio no Jornal Nacional vale uma baba. De madrugada, nem tanto. É porque há mais gente gastando tempo num horário e menos gente, no outro.
Medir o tempo gasto não chegará a criar um 'horário nobre' da internet. Mas mudou a mídia. Ela não é mais medida em páginas lidas, consultadas. A popularidade está no tempo gasto.
Aceitando-se que o pageview está mesmo obsoleto - e parece estar -, será que o tempo gasto num site é seu melhor substituto?
Este sujeito que navega pela web faz coisas diferentes. Ouve música, lê, assiste filmes, vasculha fotos. Se ele tem o hábito de recorrer ao site da Enciclopédia Britânica várias vezes ao dia para consultar datas, a Britânica lhe é confiável. Ele não consegue viver sem ela. Mas, se gasta apenas alguns segundos por vez - é rápido -, a pobre enciclopédia não ficará bem nas estatísticas. Assim mesmo, sites de vídeo, onde se gasta mais tempo habitualmente, ficarão supervalorizados com a nova medida. E isto não quer dizer que sejam melhores ou piores.
Este é um problema
para o qual não há solução imediata. Mas a internet
é uma mescla simultânea de muitas mídias, cada qual pede
uma aferição diferente. Pageview, para texto, ainda é
bom. E o debate continuará, evidentemente. Esta semana, no entanto,
ele mudou de nível. Lá nos EUA, medem internet em tempo.